Por Dr. Alan Wells, cirurgião plástico especialista em transplante capilar e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar.
Essa é uma daquelas perguntas que aparece em quase toda primeira consulta. O paciente entra, se senta, e em algum momento da conversa a frase vem: “Doutor, calvície vem da mãe ou do pai?” Às vezes com um tom de investigação, outras vezes já carregando uma teoria formada há anos dentro de casa.
E eu entendo. Quando você começa a perder cabelo, é natural querer entender de onde isso veio. Identificar uma causa, um responsável, uma lógica. O problema é que a resposta que a maioria das pessoas carrega não é bem a resposta certa; e essa confusão pode atrasar decisões importantes sobre o próprio cabelo.
De onde veio a ideia de que a calvície vem da mãe?
Durante décadas, circulou uma crença popular muito específica: a calvície seria herdada pelo lado materno da família. Mais precisamente, que o gene responsável viria do avô materno.
Essa teoria não surgiu do nada. Ela tem uma base real, mas incompleta. Existe um gene ligado à calvície androgenética (a forma mais comum de perda de cabelo masculina) que está localizado no cromossomo X.
Como o cromossomo X do homem vem da mãe, faz sentido pensar que o lado materno teria peso maior nessa história. E tem, de fato. Mas parar a explicação aí é simplificar demais uma genética que é consideravelmente mais complexa.
A verdade sobre quem transmite o gene da calvície
A calvície androgenética é o que chamamos de característica poligênica. Isso significa que ela não depende de um único gene, mas da combinação de múltiplos genes distribuídos por diferentes cromossomos; e esses genes podem vir tanto do lado materno quanto do lado paterno.
Ou seja: o seu pai, seus avós paternos, seus tios do lado do pai: todos eles contribuem para o seu perfil genético de calvície da mesma forma que o lado da sua mãe.
Pesquisas recentes em genética capilar identificaram dezenas de variantes genéticas associadas ao risco de calvície androgenética, e elas estão espalhadas pelo genoma de forma que nenhum lado da família pode ser apontado como o único responsável. É uma herança que vem dos dois lados, em proporções que variam de pessoa para pessoa.
Então a resposta mais honesta que posso dar é: quem transmite o gene da calvície é a sua família inteira. Não existe um único culpado.
Por que olhar só para o avô materno não é suficiente
Esse é um ponto que preciso reforçar, porque vejo as consequências dessa crença no consultório com certa frequência.
O paciente olha para o avô materno, que tem cabelo cheio, e conclui que está protegido. Ignora o pai calvo, o avô paterno com entradas avançadas, os tios do lado do pai. E quando a queda começa, a surpresa é grande, porque a lógica que ele usou era incompleta.
Vale adicionar que o oposto também acontece: o avô materno é calvo, o paciente já se conformou com o próprio destino capilar, mas o restante do histórico familiar aponta para um risco bem menor do que ele imagina.
Nenhuma das duas leituras é confiável quando feita de forma parcial. O histórico familiar precisa ser observado como um todo: dos dois lados, em diferentes gerações.
O papel dos hormônios nessa equação
Ter predisposição genética não significa, por si só, que a calvície vai se manifestar da mesma forma em todas as pessoas. Existe um segundo elemento nessa história: a sensibilidade dos folículos ao DHT, a di-hidrotestosterona.
O DHT é um hormônio derivado da testosterona que, em indivíduos geneticamente predispostos, se liga a receptores nos folículos capilares e desencadeia um processo de miniaturização progressiva dos fios. Com o tempo, os fios ficam mais finos, mais curtos, e eventualmente deixam de crescer.
A intensidade com que isso acontece depende justamente da combinação entre a carga genética herdada (de ambos os lados da família) e o nível de sensibilidade dos folículos a esse hormônio. Dois irmãos com os mesmos pais podem ter calvícies em graus completamente diferentes por conta dessas variações.
É por isso que a genética explica a predisposição, mas não determina o destino com precisão absoluta.
O que o histórico familiar realmente me diz na avaliação
Quando avalio um paciente no consultório, o histórico familiar é uma das primeiras informações que peço. Mas eu olho para ele de forma ampla: pai, mãe, avós dos dois lados, tios.
Esse panorama me ajuda a entender o padrão de calvície que pode se manifestar, a velocidade provável de progressão e o grau que o paciente pode vir a atingir ao longo dos anos. São informações que influenciam diretamente o planejamento do transplante, quando ele é indicado.
Nesse cenário, um bom planejamento considera não apenas onde o cabelo está hoje, mas para onde ele tende a ir. E a genética familiar, lida corretamente, oferecendo pistas importantes para essa projeção.
Genética não é destino
Esse é o ponto que mais me importa deixar claro.
Ter parentes calvos dos dois lados da família aumenta o risco, mas não sela o futuro. Existem intervenções clínicas eficazes para desacelerar a progressão da calvície androgenética: tratamentos que modulam a ação do DHT nos folículos, por exemplo, têm evidência científica consolidada nesse sentido.
E quando a perda já avançou de forma significativa, o transplante capilar permite recuperar áreas com rarefação usando folículos geneticamente resistentes à calvície, retirados da própria área doadora do paciente.
O que a genética determina é a predisposição. O que você faz com essa informação (e quando decide agir) é o que realmente define o resultado.
Quem transmite o gene da calvície não é a sua mãe, nem o seu pai isoladamente. É a soma de tudo que você herdou, dos dois lados, ao longo de gerações. Entender isso muda a forma como você lê o próprio histórico familiar; e como você toma decisões sobre a saúde do seu cabelo.
Se você quer entender o que o seu histórico genético diz sobre o futuro do seu cabelo, agende uma avaliação! Eu te explico o melhor caminho, com clareza e, claro, estudo.
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