Por Dr. Alan Wells, Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar

Cada fio do seu cabelo tem uma vida própria. Ele nasce, cresce, entra em repouso e cai seguindo um cronograma biológico preciso e independente dos fios vizinhos. 

Esse ciclo acontece continuamente em todos os folículos do couro cabeludo, o que explica por que perdemos fios diariamente sem que isso represente, necessariamente, um problema de saúde capilar.

Compreender o ciclo capilar é o ponto de partida para entender a queda, distinguir o normal do patológico e avaliar com precisão quando uma intervenção clínica é de fato necessária. É também a base sobre a qual qualquer tratamento, incluindo o transplante capilar, deve ser planejado.

A fase anágena: o crescimento ativo

A fase anágena é o período de crescimento ativo do fio. Nela, as células da matriz folicular se dividem rapidamente, produzindo o fio que cresce a uma taxa de aproximadamente 1 a 1,5 centímetro por mês. A duração da fase anágena varia entre 2 e 7 anos, determinada geneticamente, e define o comprimento máximo que o cabelo pode atingir.

Em um couro cabeludo saudável, aproximadamente 85 a 90% dos folículos estão em fase anágena em qualquer momento. Isso garante que a maior parte dos fios esteja em crescimento simultâneo, mantendo a densidade visual do cabelo. Condições que reduzem a proporção de folículos em fase anágena comprometem esse equilíbrio.

A fase catágena: a transição

A fase catágena é uma fase breve de transição, com duração de 2 a 3 semanas. Nela, o folículo interrompe a produção de fio, a papila dérmica se retrai e o bulbo capilar sobe em direção à superfície do couro cabeludo. O fio para de crescer, mas ainda não cai.

Apenas cerca de 1 a 2% dos folículos estão em fase catágena em qualquer momento. Embora breve, essa fase é biologicamente importante porque representa a preparação do folículo para o repouso e a subsequente renovação do ciclo.

A fase telógena: o repouso

Na fase telógena, o folículo está em repouso. O fio, agora chamado de fio clava (ou telógeno), permanece inserido no folículo mas não cresce. Essa fase dura entre 2 e 4 meses e é quando o fio se solta naturalmente, especialmente com a lavagem ou escovação do cabelo.

Perder entre 50 e 100 fios por dia é considerado normal e corresponde ao volume de fios telógenos que chegam ao fim do ciclo diariamente. 

Perdas consistentemente acima desse valor podem indicar um eflúvio telógeno, condição em que um número excessivo de folículos entra em fase telógena simultaneamente, geralmente em resposta a estresse intenso, mudança hormonal ou deficiência nutricional.

O que acontece quando o ciclo é alterado

Na calvície androgenética, a DHT encurta progressivamente a fase anágena dos folículos sensíveis. A cada ciclo, o período de crescimento ativo é menor, o fio produzido é mais fino e curto, e o intervalo telógeno fica relativamente mais longo. 

Esse processo de miniaturização folicular culmina na ausência de fio visível, embora o folículo permaneça biologicamente presente por algum tempo.

No transplante capilar, os folículos transplantados entram em fase telógena logo após o procedimento, o que explica a queda temporária dos fios nas primeiras semanas. Não é perda folicular: é o ciclo completando sua fase de repouso antes de reiniciar o crescimento no novo local.

Ciclo capilar e planejamento do transplante

Entender o ciclo capilar permite planejar o transplante com mais precisão. Saber que os folículos transplantados levarão de 3 a 4 meses para iniciar novo ciclo anágeno no novo local, e que o resultado completo se consolida entre 12 e 18 meses após o procedimento, calibra as expectativas e evita interpretações equivocadas do pós-operatório.

O ciclo capilar é o mapa biológico que orienta qualquer intervenção séria em medicina capilar. Compreendê-lo transforma o paciente em um participante informado do próprio tratamento.

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