Por Dr. Alan Wells, Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar

A biotina está em praticamente todo produto voltado para o crescimento capilar. Shampoos, cápsulas, gomas mastigáveis, soros, condicionadores. 

O argumento de venda é sempre semelhante: a vitamina do cabelo, da pele e das unhas. O que raramente aparece junto é o contexto clínico que determina quando a biotina faz sentido e quando é apenas um ingrediente de apelo comercial.

A pergunta não é se a biotina é boa ou ruim. É para quem ela é indicada, em que quantidade e em que contexto. Sem essa distinção, o paciente gasta dinheiro com suplementação desnecessária enquanto o problema real, muitas vezes identificável e tratável, segue sem atenção.

O que é a biotina e qual é sua função no organismo

A biotina, também chamada de vitamina B7, é uma vitamina hidrossolúvel do complexo B. Ela participa de processos enzimáticos ligados ao metabolismo de carboidratos, gorduras e proteínas. 

No contexto capilar, sua relevância está na síntese de queratina, a proteína estrutural que compõe o fio. Sem biotina disponível em quantidade adequada, a produção de queratina pode ser comprometida.

O problema é que a deficiência real de biotina é rara em adultos com alimentação equilibrada. O organismo obtém biotina de alimentos como ovos, nozes, leguminosas e vegetais folhosos verdes. 

Pessoas com dieta variada raramente apresentam déficit clínico suficiente para impactar a saúde capilar.

Quando a suplementação de biotina faz diferença

A suplementação de biotina tem indicação clínica clara em casos de deficiência comprovada, identificada por exame laboratorial. 

Nessas situações, a reposição pode melhorar a qualidade do fio, reduzir a fragilidade da haste e contribuir para um ciclo capilar mais regular. O benefício é real, mas restrito a quem efetivamente tem o déficit.

Grupos com maior risco de deficiência incluem pessoas com condições que comprometem a absorção intestinal, gestantes, pacientes em uso prolongado de alguns anticonvulsivantes e consumidores frequentes de clara de ovo crua, que contém uma proteína que bloqueia a absorção da biotina. 

Fora desses contextos, a suplementação tende a ter impacto clínico limitado.

O que o marketing omite

A indústria de suplementos veicula a biotina como agente de crescimento capilar. Essa narrativa é imprecisa. 

A biotina não acelera o crescimento do fio em pessoas com níveis normais da vitamina. Ela é um cofator metabólico necessário para a produção de queratina, não um estimulante folicular.

Estudos que demonstram benefício da biotina em cabelos e unhas foram realizados em populações com deficiência documentada ou com condições específicas como o uncombable hair syndrome. Extrapolar esses resultados para a população geral sem avaliação prévia é um salto que o marketing faz com frequência, mas que a medicina não sustenta.

O que realmente avalia a saúde do ciclo capilar

Antes de qualquer suplementação, a queda capilar deve ser avaliada por um especialista. A causa pode ser queda androgênica, deficiência de ferro, hipotireoidismo, queda difusa por estresse ou outras condições que exigem abordagem específica. A biotina não trata nenhuma dessas causas.

Como Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar, vejo regularmente pacientes que chegaram ao consultório após meses de suplementação sem resultado porque a causa da queda nunca foi investigada com rigor. 

A biotina para o cabelo pode ser útil no contexto certo, mas o contexto certo precisa ser determinado clinicamente, não escolhido em uma prateleira de farmácia.

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